friaca

desatino a frio sem céu

véu de nuvens humoradas de noite

perdi o nariz e o terror

é não sentir o aguaceiro nas fossas

fugo ao retiro onde o calor

de colo felino ronron toma-me posse

o pelo lembra a pele acorda

a tempo de antes se me cara a caia no chão

vendidas

árvore e escrita

morte

decaídas em silêncio

encanto e inutilidade

nós

aspiração a vestígio

mutação e manifesto

sobras

esquecidas

entrega e resistência

caixa de morangos

vermelho e suco a derramar o céu

absurdo

o de lavar a areia dos morangos quando na memória mirava a terra espanada pelas mãos de seu avô direto encontrados nos baixos pés à altura de onde a novidade se escondia

agrotóxico e água do afeto até o azul se pôr

não era infância, nem mais tinha avô

todo o sol se nos decore é dia

fane revém

não sei qual mundo era tempo em que eu era vigia

no descuido de momento

palavra correu fresta feito chispa na pólvora

poesia incendiou palavra que no vento sumia

era uma coisa sem intento

sem desejo não se nasce e eu jazia

nos olhos que me fizeram vista

eu, que me acreditava cinza desaparecida,

encontrei o ponteiro de um novo alento

olhos castanhos, palhaça menina, tome tento

corrente de delírio sem sentido e puro unguento

compromete o sentir, onde é fogo resfria lento

de unidas, piscamo-nos à beleza prenhe do novo intento

a cada parteiro de leitura no morrer da hora uma existência existida

no universo infinito sem um a menos sempre ainda cabe mais vida

arre, menina, não há que se entender nada não, dê logo a partida

no gesso da razão sabida demais é que se engana por ser menos sabida

 

 

conto de açúcar e de sal ou o insosso ou a alma lavada

dedicado a GMC

Na terra dos pele-de-açúcar, o império é forjado sobre os ombros dos pele-de-sal. Estes ainda que portadores da cura, vendem sua pele para descobrir o doce existir da vida. A proporção obviamente não é justa. É preciso apenas uma pequena quantia de sal para tudo, fino ou grosso, mas o açúcar, ah, o açúcar… Pode ser bastante e mascavo, demerara, cristal ou refinado, de cana ou beterraba, de confeiteiro ou caramelizado… Os de-açúcar, que são poucos e vivem nas árvores e no mato do alto, cantam o melífluo benefício dos deuses, o conhecimento das estrelas e se compartilham, como dizem, por caridade e divindade e suspiram apenas aos céus e aos descentes seus mistérios. Os de-sal, que são muitos e vivem no seco da terra na beira d’água que não mata a sede pois sempre salgada, se regozijam do encantamento da dádiva do doce, dele vislumbram o céu antecipado e apenas crescem em peitos conspiradores os rumores de uma grande chuva jamais conhecida, onde a terra era ainda tida plana e águas e terras eram infindas. Em um dia a salzinha menina, filha do grande mestre salgado, foi pedida em sacrifício para o príncipe açucarado, que ousara desafiar os céus na pretensão de futuro comandante astro-lei, desejando que a grande chuva fosse eternamente mito calado. Quando o sol nasceu e não iluminou o rosto da menina no despertar em sua cama, o grande mestre revoltado sabia por intuitivo onde teria sido o silêncio do seu destino. Inflado de ódio foi ao portal da arbórea alvorada açucarada e clamou como trovão aos palacianos que devolvessem sua filha e aos salgados a sua alma macerada. Tudo o que o grande mestre ouviu do grande mascavo foram palavras de paz e por entre folhas espiou o olho direito em brilho e o meio-sorriso do príncipe. O grande mestre ceifado pela decepção da morte do seu futuro viu como em sonho toda a geração ancestral movida pelo sal da terra na esperança de dias de chuva. Ciente da legião de entorpecidos pelo cego vício da lógica do sal sob o comando do açúcar, de coração partido, em frente ao palácio, caindo de joelhos e vendo-se desfalecer a vida, deu seu último brado. Eu amaldiçoo a todos que venderam a vida ao sal e ao açúcar! Que tenham sua alma lavada pela grande chuva e busquem em eterno vagar a sua essência. O príncipe comeu o sorriso, pois não é que o doce também se sentia amargo?, e apertou os olhos de desdém pensando ser o velho louco. O grande mascavo se compadeceu do velho mestre agora falecido, saco de morte e pele, corpo desabitado sobre o próprio sal, e ponderou sobre haver erguido uma dinastia de vazios e medos. Tarde demais, já vinha lá fechada e muita, coisa que ninguém conhecia. Cumulonimbus chumbava o céu sempre antes ferido e sorrido de azul. Os de-sal e os de-açúcar corriam ao léu. Outros contemplavam o abismo de si naquelas só então sabidas nuvens, como quem não pode perder de admirar o escorrer da vida até o que lhe rouba seu último evento. Ecoaram trovões, e caíram raios do céu. Bestificados e orando por integridades sadias, alguns muitos não se salvaram. Salgados morridos espumaram mares, açúcares derretidos foram sorvidos por frutas nos pomares. Os que semanas embebidos até o pescoço em inundação não morreram perderam a pele de sal, e também se perdeu o açúcar na água. Malgrado o rebuliço dos céus e o malfadado sacrifício, o astro sol resolveu fazer-se de bem-vindo à secagem. Quando então foi que os sobrevividos sentiram sua pele sem gosto, sem sabor, sem mágoa. Na cabeça reminiscências de açúcar e de sal. Onde agora era essência? A alma era água.