Não é verdade que eu não tenha tido suficientemente encontros com a vida. Muito menos que me tenha acabado o espanto. (Me divirto imaginando Ferreira Gullar poetizando concretamente um dedo do meio para a vida antes do último suspiro.) É que o encontro permanentemente de luz e sombra é todo um fora e dentro. Para onde vou, vai comigo, e há nisso alguma coisa de sagrado, de infinito, de engraçado, de trágico e de banal. As palavras nessa água adquirem uma transparência que não mais criptografam a realidade. A ilusão é de que a realidade é mais e de que a palavra é translúcida. Nessa fragilidade há uma potência em que antes não se me ocorria dessa aderência orgânica e viva. Claro que me ocorria, mas não tinha experimentado ainda na pele da ignorância, da censura, da mutação errônea da realidade por descaso com a pobreza e com a miséria, em benefício do dinheiro e de meia-dúzia de cabeças que se cortarão entre elas mesmas, pois são bestas vorazes e sem dimensão da sua própria ignorância. Estão nus o tempo todo e todos estamos vendo. A diferença a nosso favor é o respeito à humanidade. E, sim, essa dicotomia é necessária aos tiranos, embora o fio que separa seja sempre uma lâmina sobre a qual equilibramos nossos pés. A sentença vem em corte e não se sabe mais o que é justiça quando a democracia está vilipendiada a favor do lucro. A burrice é tanta que destruindo a natureza simplesmente não haverá matéria-prima. A burrice é tanta que deixando os trabalhadores mais pobres e miseráveis e ignorantes e armados haverá mais mortes, mais violência, mais doenças, mais revolta contra o próprio governo, menos capacidade de compra, menos capacidade de impostos, menos tudo, uma política da escassez, a crueldade da política da escassez disfarçada de boas intenções, onde o lucro segue dos empresários, mas estes também vão perder… Aliás alguns começaram a entender, sob a palavra sustentabilidade começa a corrida para reverter dano ou disfarçar números que quebram o gerenciamento de recursos das empresas que também são predatórias de si mesmas e dos trabalhadores como o modelo do nosso atual governo… Vamos retirar os plásticos, eles dizem… E a água das geleiras derretidas já bateu à bunda nos polos e respinga para cá algumas doações em cifras para que se preservem as árvores enquanto as fronteiras se erguem entre nações para barrar pessoas como que se… Bem, eu não sei onde todos vivem, mas parece um só lugar. E tudo isso para dizer que não sou do tipo palestra e comício apesar do encantamento da palavra escrita e falada, mas há tempos em que toda palavra é ao mesmo tempo bomba e desperdício e minha poesia tem se repousado para saber onde se reencontrar no todo fluxo dessa água. Amo Thich Nhat Hanh, que, ao fim da vida, é exatamente o que quer ser, o amor, a meditação, a sua vida como sua mensagem. Nele penso nesses dias de sal e ferida. Sobre como fazer o coração grande, imenso, maior do que jamais fora. A diferença de um punhado de sal no copo d’água para o punhado de sal no curso do rio. Para nossos punhos cerrados nosso coração precisa ser imenso. E seguir uma luta pelo amor como jamais ousamos porque agora é a nossa. Tenho me ensaiado por outros textos, fica aqui uma lembrança em fluxo de pensamento. Nós nos sabemos e somos muitos. Que siga na ação a esperança. Tudo o que fizermos (e também o que não) jamais será em vão. O homem jamais será uma ilha.

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found with no lost
by the course
just I can miss you
death to reminders
forever a stream of

A Aldyr Garcia Schlee

Estagiei durante dois anos no Acervo Literário de Erico Verissimo, situado no então Centro de Memória Literária, no prédio de Letras da PUCRS, coordenado pela professora Maria da Glória Bordini. Lá eu era responsável pela organização do acervo de Fotografias. Devo ter feito um certo estrago de números nas fotos (me perdoem!), de documentação eu entendia bem menos que minha curiosidade e desejo de estar perto da literatura e de quem a faz. Eu me recordo de ter digitalizado muita coisa. Descrever fotos e viajar nas memórias fazia da utilidade ao mesmo tempo feliz. Quando da Letras na PUCRS me fui para a faculdade na UFRGS tive oportunidade de ser bolsista de iniciação científica da querida professora Léa Masina, que me apresentou seu projeto de influxos platinos e então tomei contato com o que significa ser gaúcho dentro e fora da literatura: o quanto somos guaranis, quéchuas, portugueses, muitos-brasis, espanhóis, argentinos, uruguaios, no espanhol em desafio transfronteiriço ao português oficializado pela coroa e nos limites invisíveis da fronteira que aproxima na tensão que propõe o que afasta. Foi a professora Léa que me apresentou os contos de Aldyr Schlee. Meu trabalho de conclusão e minha dissertação versaram sobre os textos dele. A literatura dele me ensinou que somos habitados pelas vozes da nossa história. Ninguém sai ileso de um encontro. As fronteiras são ilusões necessárias a quem precisa delas. As personagens sem nome falam a língua do seu tempo e espaço. La pampa, no feminino, é sempre mais prenhe de movimento, de campo, como a ganhar tudo antes quando da disputa se pensam homem e cavalo. O escritor pode ser um tradutor de memórias. A ficção pode revelar muito mais. O tradutor é tão autor quanto estrangeiro. Ser de todo território também o faz de nenhum território. Sempre haverá um eu e um outro. Eu me recordo de seu autógrafo em uma Feira do Livro de Porto Alegre, interessante, meu pai foi neste dia comigo, e eu lhe mostrei um exemplar do livro “El día en que el papa fue a Melo”, edição possivelmente por minhas mãos esgotada, e da sua emoção ao reencontrar o livro, com todo aquele significado digno dos reencontros, ao que você me agradeceu, com toda gentileza, e anos mais tarde, eu já mestra, dividimos uma mesa (intermediada pela querida Léa), em que você falou sobre como sua esposa o achava pouco criativo ao escrever tanto de suas próprias histórias. Um autêntico Aldyr Garcia Schlee. Você que criou o uniforme da seleção canarinho, o que diria das recentes legiões de manifestantes vestidas de torcida organizada? (Moralismo futebolista do tamanho de sonho de Nelson Rodrigues!) Bem… aí vai outra história de Feira, esta atualizada. Ontem, minha mãe foi à Feira do Livro, e pelas bancas, não na da editora onde trabalho, encontrou um livro de crônicas (eu já havia lhe presenteado com um livro de crônicas antes, mesmo sendo criada com livros em casa não me recordava de que livro ela gostava de ler…). Hoje ela me mandou uma mensagem. Em casa, olhando o livro que ela comprara com mais atenção, viu que nos créditos estava o meu nome como revisora. Achei que você gostaria dessa história. Tem a ver com a história das nossas histórias e com o legado das nossas ações no mundo, neste mundo. Acho que aqui tenho me saído bem com minha própria narrativa graças aos encontros e aprendizados com pessoas maravilhosas e seus feitos. Obrigada, Schlee.

devolver as pessoas a elas mesmas. fiando-me narrativa. significado. a poesia em tom espiritual. respiração traz de volta o que permito que me furtem. corpo de olhos cansados. quero compartilhar este isto. minha verdade tem muito de palavra. nela outro muito de amor. os dias ameaçam seus fins como consequência. Liberdade. aquilo jamais destruído porque conquistado. estranha de amores. aprendo por persistência. jogos de cara-esconde. criança. declínio para brinquedo. concreto. o sonho dança. medo limite. eu erro. meu todo ridículo. beleza é fazer. faço o que faço. viajo em mim. sozinha a corajosa. me contam dela. desafio a realidade. viver sem medo. co-habitamos no ruído. desejo boa vida. pessoas no ônibus. aprendi apreço. despedidas. inclino a cabeça. rota. alinhado encontro. cumprimento desconhecido. parada me percebo. eu sorrindo. me encanto de espera. o tempo das sinaleiras. cheio de céu. minha casa tem felinas. janela grande a sala. lá fora a árvore. resistência gentil. vento tronco raiz galhos estação folhas. sabedoria conforta. as gatas tudo veem. também transformam. sou mais felina. despertar. finitudes nos fins possíveis. não sem antes visita. em mim o assassino. não ação lhe dei espaço. não me iludo que vá. nem será convidado. me devolvi. ao que me pertenço. contra sequestro. flores à luta. quase perdida. recuperei a vista. férias quando me reencontro. espaço de praça e tarde. quadra de trás de onde moro. pedaço favorito de mundo.

. saudações

I
estômago
segundo desejado
ao Natal comungado
em ceia e redenção
ao nascido
celebração do torturado
houve tempo
saudades
comércio era
precocemente vermelho
corrupção
em outubro e novembro
houve tempo
saudades
questão era
arroz para comê-lo
para uva passa
qual era função
II
canto paraglória
triste hilário
ritmado e oportunista
sinal vermelho
é comunista
bandeira vermelha
é comunista
planeta vermelho
é comunista
diabo vermelho
é comunista
conta no vermelho
é comunista
livro vermelho
é comunista
chapolin vermelho
é comunista
turma da Mônica
é comunista
melancia
é comunista
hemorragia
é comunista
luz de puteiro
é comunista
e o meio ambiente
é comunista
e o mundo inteiro
é comunista
e a poesia
é comunista
e a professora
é comunista
e a ciência
é comunista
e a consciência
é comunista
e a humanidade
é comunista
e a ideologia
é comunista
e você
é luz, é raio, estrela e luar
Aí vai uma marchinha* para o Carnaval de 2019. Nós, todo o povo, minorias sem maiores, que não cabemos no seu bolso, vamos ensinar ao futuro ex-presidente o que é felicidade. Para colocar os corações odiosos e o sete-pele no modo soneca até as Diretas Já! Ai, meus 35 anos! It’s a party! Let’s celebrate!
 
Boi, boi, boi, boi da cara preta
Pega esse fascista
Que tem medo de poeta
 
Boi, boi, boi, boi da cara preta
Pega esse capeta
Que tem medo de buzina
 
* Atualizada conforme a Associação dos Novos Arcaicos da Moralidade Brasileira.