A Aldyr Garcia Schlee

Estagiei durante dois anos no Acervo Literário de Erico Verissimo, situado no então Centro de Memória Literária, no prédio de Letras da PUCRS, coordenado pela professora Maria da Glória Bordini. Lá eu era responsável pela organização do acervo de Fotografias. Devo ter feito um certo estrago de números nas fotos (me perdoem!), de documentação eu entendia bem menos que minha curiosidade e desejo de estar perto da literatura e de quem a faz. Eu me recordo de ter digitalizado muita coisa. Descrever fotos e viajar nas memórias fazia da utilidade ao mesmo tempo feliz. Quando da Letras na PUCRS me fui para a faculdade na UFRGS tive oportunidade de ser bolsista de iniciação científica da querida professora Léa Masina, que me apresentou seu projeto de influxos platinos e então tomei contato com o que significa ser gaúcho dentro e fora da literatura: o quanto somos guaranis, quéchuas, portugueses, muitos-brasis, espanhóis, argentinos, uruguaios, no espanhol em desafio transfronteiriço ao português oficializado pela coroa e nos limites invisíveis da fronteira que aproxima na tensão que propõe o que afasta. Foi a professora Léa que me apresentou os contos de Aldyr Schlee. Meu trabalho de conclusão e minha dissertação versaram sobre os textos dele. A literatura dele me ensinou que somos habitados pelas vozes da nossa história. Ninguém sai ileso de um encontro. As fronteiras são ilusões necessárias a quem precisa delas. As personagens sem nome falam a língua do seu tempo e espaço. La pampa, no feminino, é sempre mais prenhe de movimento, de campo, como a ganhar tudo antes quando da disputa se pensam homem e cavalo. O escritor pode ser um tradutor de memórias. A ficção pode revelar muito mais. O tradutor é tão autor quanto estrangeiro. Ser de todo território também o faz de nenhum território. Sempre haverá um eu e um outro. Eu me recordo de seu autógrafo em uma Feira do Livro de Porto Alegre, interessante, meu pai foi neste dia comigo, e eu lhe mostrei um exemplar do livro “El día en que el papa fue a Melo”, edição possivelmente por minhas mãos esgotada, e da sua emoção ao reencontrar o livro, com todo aquele significado digno dos reencontros, ao que você me agradeceu, com toda gentileza, e anos mais tarde, eu já mestra, dividimos uma mesa (intermediada pela querida Léa), em que você falou sobre como sua esposa o achava pouco criativo ao escrever tanto de suas próprias histórias. Um autêntico Aldyr Garcia Schlee. Você que criou o uniforme da seleção canarinho, o que diria das recentes legiões de manifestantes vestidas de torcida organizada? (Moralismo futebolista do tamanho de sonho de Nelson Rodrigues!) Bem… aí vai outra história de Feira, esta atualizada. Ontem, minha mãe foi à Feira do Livro, e pelas bancas, não na da editora onde trabalho, encontrou um livro de crônicas (eu já havia lhe presenteado com um livro de crônicas antes, mesmo sendo criada com livros em casa não me recordava de que livro ela gostava de ler…). Hoje ela me mandou uma mensagem. Em casa, olhando o livro que ela comprara com mais atenção, viu que nos créditos estava o meu nome como revisora. Achei que você gostaria dessa história. Tem a ver com a história das nossas histórias e com o legado das nossas ações no mundo, neste mundo. Acho que aqui tenho me saído bem com minha própria narrativa graças aos encontros e aprendizados com pessoas maravilhosas e seus feitos. Obrigada, Schlee.

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devolver as pessoas a elas mesmas. fiando-me narrativa. significado. a poesia em tom espiritual. respiração traz de volta o que permito que me furtem. corpo de olhos cansados. quero compartilhar este isto. minha verdade tem muito de palavra. nela outro muito de amor. os dias ameaçam seus fins como consequência. Liberdade. aquilo jamais destruído porque conquistado. estranha de amores. aprendo por persistência. jogos de cara-esconde. criança. declínio para brinquedo. concreto. o sonho dança. medo limite. eu erro. meu todo ridículo. beleza é fazer. faço o que faço. viajo em mim. sozinha a corajosa. me contam dela. desafio a realidade. viver sem medo. co-habitamos no ruído. desejo boa vida. pessoas no ônibus. aprendi apreço. despedidas. inclino a cabeça. rota. alinhado encontro. cumprimento desconhecido. parada me percebo. eu sorrindo. me encanto de espera. o tempo das sinaleiras. cheio de céu. minha casa tem felinas. janela grande a sala. lá fora a árvore. resistência gentil. vento tronco raiz galhos estação folhas. sabedoria conforta. as gatas tudo veem. também transformam. sou mais felina. despertar. finitudes nos fins possíveis. não sem antes visita. em mim o assassino. não ação lhe dei espaço. não me iludo que vá. nem será convidado. me devolvi. ao que me pertenço. contra sequestro. flores à luta. quase perdida. recuperei a vista. férias quando me reencontro. espaço de praça e tarde. quadra de trás de onde moro. pedaço favorito de mundo.

. saudações

I
estômago
segundo desejado
ao Natal comungado
em ceia e redenção
ao nascido
celebração do torturado
houve tempo
saudades
comércio era
precocemente vermelho
corrupção
em outubro e novembro
houve tempo
saudades
questão era
arroz para comê-lo
para uva passa
qual era função
II
canto paraglória
triste hilário
ritmado e oportunista
sinal vermelho
é comunista
bandeira vermelha
é comunista
planeta vermelho
é comunista
diabo vermelho
é comunista
conta no vermelho
é comunista
livro vermelho
é comunista
chapolin vermelho
é comunista
turma da Mônica
é comunista
melancia
é comunista
hemorragia
é comunista
luz de puteiro
é comunista
e o meio ambiente
é comunista
e o mundo inteiro
é comunista
e a poesia
é comunista
e a professora
é comunista
e a ciência
é comunista
e a consciência
é comunista
e a humanidade
é comunista
e a ideologia
é comunista
e você
é luz, é raio, estrela e luar
Aí vai uma marchinha* para o Carnaval de 2019. Nós, todo o povo, minorias sem maiores, que não cabemos no seu bolso, vamos ensinar ao futuro ex-presidente o que é felicidade. Para colocar os corações odiosos e o sete-pele no modo soneca até as Diretas Já! Ai, meus 35 anos! It’s a party! Let’s celebrate!
 
Boi, boi, boi, boi da cara preta
Pega esse fascista
Que tem medo de poeta
 
Boi, boi, boi, boi da cara preta
Pega esse capeta
Que tem medo de buzina
 
* Atualizada conforme a Associação dos Novos Arcaicos da Moralidade Brasileira.

Outubro já foi mais feliz, criança. Hoje 12, quero te fazer infância. Quero te devolver o que o ódio por falta de amor não quis. Te abraço como precisei de braços para proteger os passos da minha infância. Quem não sofreu alguma violência da vida não sabe o que diz. Amor, criança. Te abraço, infância. Porque me omiti e calei e ri e sem querer eu feri porque tive medo de perder o amor e perder a infância e para não perder amigo assim eu repeti. Perdão, criança. Amor, infância. Perdão pela violência contra tua infância, que te deixou à mercê de pai sem lei, de mãe de cartilha, de professor com amor em atenção à sala com mais de 30 e 1 parcelado na angústia por saber que precisa te oferecer mais do que ler e escrever para poder te ensinar a luta de pensar e ser, que não deveria tão precoce ser contra os que são contra a tua infância. Porque não querem a responsabilidade de contigo verificar teus livros. Porque querem antes de tu sair da escola te meter na cadeia. Querem te dar o ofício de armar. Aos 16, morto teu último tempo de estudo. Te vira, o mundo não é justo? Pra quem tem poder e arma nas mãos? É essa a lição? Não é isso o que te ensina o de bem cidadão? Perdão, criança. Amor, infância. Outubro já foi mais feliz, criança. Hoje 12, quero te fazer infância.

 

#NãoSenhor #EleNão #EleNunca

lançar ao universo
registro de natureza
domingo de colo quieto
literatura sonho escrita
a miúdo conteúdo
transforma amadora
encontro existência fluir
hora forma intensidade
a partir cria percurso
assinatura sem nome corre e busco
véu profundo sentido horizonte
sol a expandir o que há
em-mim sem-fim
amor e sorte

Do you know what it feels like for a girl?
Acordar jogadora sentada a uma mesa de luz com entorno em sombra. De partida, cartas de mão perdida. O jogo é ganho dos quatro. Sou o quinto elemento. Risos no rosto de mal disfarçada paisagem. Na boca vermelho puta, blusa branca sobre bicos dos seios, saia nas coxas, cabelo lavado. Limpa, como assepsia. Corpo como corpo. Descalça. O piso é frio. Sapatos caros em barro, calças sem banho, colarinhos em semiaberto. Desdém. Quando olham é coisa o que veem. O jogo está ganho. Solto as cartas sobre a mesa. Seguem o jogo. Continuo a jogar. Não vejo a porta. Não sei se poderei sair da sala. Não posso entregar meu cheiro. Pela gota no pescoço, ele sua mais. Fecha o rosto. Expõe as cartas, mostradas, sobre a mesa. Três o admoestam. Um tapa na nuca. Coração corrido. Sem riso, volta a segurar as cartas. Sem riso, seguram as cartas. O jogo segue sobre a mesa. Não mais. Estão às claras. Me recuso a seguir jogada. Levanto. Não há jogadores. Não há cartas. A sala se ilumina em branco. Espelhos da sala em hexágono. Favos multiplicados. Muitas. Nos olhamos. Espelhadas nos olhos dos olhos. O acordo no balanço do rosto. A mão na outra espalmada no encontro de direção. Não há portas. Não há salas. Pés na grama. Terra. Fogo. Água. Ar. Campo aberto. Adiante. Pequenas em número gigante. Somas. Somos. Voo.

*

é como de partida sair com cartas de mão perdida
jogo de azar
do you know what it feels like for a girl?
a coragem de amar
desistir do jogo não é fácil
a quem sempre vence poder ganhador
gana e dor
persistência ensinamos
sair do jogo
consciência e vida
não há cartas não há jogadores não há partida não há saída
atenção às mãos aos olhos aos cantos da boca
onde a emoção habita
ousar ser despertar amar ainda
é como de partida sair com cartas de mão perdida
jogo de azar
do you know what it feels like for a girl?

*

ser e viver toda todo precisa
despertar e viver
acordar e ser
regras às claras
a quem de jogo
arte direito humanidade
não única único
somas somos tantas tantos muitas muitos
haveremos de achar
senão a de outrem
coragem
a minha
não há saída não há partida
saber e crer
trabalhar e acontecer
amar amar amar amar amar amar amar amar amar

*

poema vida
palavra partida perdida
resistência sopro
poesia amor

*

* Nota da Autora: Assista ao documentário The mask you live in (“A máscara em que você vive”). Ouça “What it feels like…” by Madonna.