diário

tomo um café da manhã

com leite e sem açúcar

amargo a sensação do porvir

de olhos inchados

me arremesso num tumulto de pastas pernas conversas

sobre as rodas de um automotor coletivo

com motor de calhambeque

salto para o mundo de signos

colegas risadas bocejos

professores bibliotecas bípedes

ou quadrúpedes

enjiboiamento sobremesa e sono

cansaço e um vaguear

pelo centro da cidade

batidas atropelamentos arrombamentos

pessoas sem sinal nem freio

sem olhar nem desculpas

cafezinho preto bolacha do colega

um relógio anti-horário

catar milho em grãos digitais

um como vai que vem

bem para passar o tempo

cartão ponto e uma oração

ao deus Ponteiro

acabe dia logo

o sol desce

desço do ônibus

as luzes da cidade

espreitam a noite curiosas

o que eles fazem no escuro

eu sei ir ao banheiro

tomar café

ir me deitar

aconchego do corpo horizontal

programar o despertador

finalmente agradeço por Ele

ter ouvido minhas preces

de repente um medo danado

de que os anjos digam amém

Anúncios

Um comentário sobre “diário

  1. Este poema foi escrito lá pelos 2005 e recortado ao longo do tempo, diferente um pouco da versão que ganhou o quarto lugar do concurso Cataratas desse ano incerto. À época eu estava na graduação em Letras, e o poema é na minha expressão a sensação da rotina, algo que considero de inspiração drummondiana. A forma dos cortes nos versos retirando excessos e o olhar para o que se materializa no simples para instigar uma inquietação existencial, ainda reconheço no que escrevo agora. Notar que, assim como em outras formas poético-literárias, por mais que tudo que se escreva seja altamente autobiográfico, é também ficcional. Engraçado é que este blog e esta nova estapa de escrita me parecem um tanto como novidade (pela liberdade de uma escrita livre na web e pelo impulso de escrever para o jogo de curiosidade e satisfação com as descobertas vestidas de escrita), mas ao rever este poema eu sorri para o reconhecimento de mim mesma no meu caminho da poesia. Neste momento não penso em concorrer em concursos literários ou tentar publicação, ofereço aqui esta nova ordem de mundo que me sobra para quem sabe alguém tenha a possibilidade de encontro, identificação ou alguma coisa que se inscreva no nível de experiência de vida. Quem sabe mais para a frente, quando eu me tornar poeta ou escritora… lá pelos 80 anos. Por enquanto ensaio meu melhor possível.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s