conto de açúcar e de sal ou o insosso ou a alma lavada

dedicado a GMC

Na terra dos pele-de-açúcar, o império é forjado sobre os ombros dos pele-de-sal. Estes ainda que portadores da cura, vendem sua pele para descobrir o doce existir da vida. A proporção obviamente não é justa. É preciso apenas uma pequena quantia de sal para tudo, fino ou grosso, mas o açúcar, ah, o açúcar… Pode ser bastante e mascavo, demerara, cristal ou refinado, de cana ou beterraba, de confeiteiro ou caramelizado… Os de-açúcar, que são poucos e vivem nas árvores e no mato do alto, cantam o melífluo benefício dos deuses, o conhecimento das estrelas e se compartilham, como dizem, por caridade e divindade e suspiram apenas aos céus e aos descentes seus mistérios. Os de-sal, que são muitos e vivem no seco da terra na beira d’água que não mata a sede pois sempre salgada, se regozijam do encantamento da dádiva do doce, dele vislumbram o céu antecipado e apenas crescem em peitos conspiradores os rumores de uma grande chuva jamais conhecida, onde a terra era ainda tida plana e águas e terras eram infindas. Em um dia a salzinha menina, filha do grande mestre salgado, foi pedida em sacrifício para o príncipe açucarado, que ousara desafiar os céus na pretensão de futuro comandante astro-lei, desejando que a grande chuva fosse eternamente mito calado. Quando o sol nasceu e não iluminou o rosto da menina no despertar em sua cama, o grande mestre revoltado sabia por intuitivo onde teria sido o silêncio do seu destino. Inflado de ódio foi ao portal da arbórea alvorada açucarada e clamou como trovão aos palacianos que devolvessem sua filha e aos salgados a sua alma macerada. Tudo o que o grande mestre ouviu do grande mascavo foram palavras de paz e por entre folhas espiou o olho direito em brilho e o meio-sorriso do príncipe. O grande mestre ceifado pela decepção da morte do seu futuro viu como em sonho toda a geração ancestral movida pelo sal da terra na esperança de dias de chuva. Ciente da legião de entorpecidos pelo cego vício da lógica do sal sob o comando do açúcar, de coração partido, em frente ao palácio, caindo de joelhos e vendo-se desfalecer a vida, deu seu último brado. Eu amaldiçoo a todos que venderam a vida ao sal e ao açúcar! Que tenham sua alma lavada pela grande chuva e busquem em eterno vagar a sua essência. O príncipe comeu o sorriso, pois não é que o doce também se sentia amargo?, e apertou os olhos de desdém pensando ser o velho louco. O grande mascavo se compadeceu do velho mestre agora falecido, saco de morte e pele, corpo desabitado sobre o próprio sal, e ponderou sobre haver erguido uma dinastia de vazios e medos. Tarde demais, já vinha lá fechada e muita, coisa que ninguém conhecia. Cumulonimbus chumbava o céu sempre antes ferido e sorrido de azul. Os de-sal e os de-açúcar corriam ao léu. Outros contemplavam o abismo de si naquelas só então sabidas nuvens, como quem não pode perder de admirar o escorrer da vida até o que lhe rouba seu último evento. Ecoaram trovões, e caíram raios do céu. Bestificados e orando por integridades sadias, alguns muitos não se salvaram. Salgados morridos espumaram mares, açúcares derretidos foram sorvidos por frutas nos pomares. Os que semanas embebidos até o pescoço em inundação não morreram perderam a pele de sal, e também se perdeu o açúcar na água. Malgrado o rebuliço dos céus e o malfadado sacrifício, o astro sol resolveu fazer-se de bem-vindo à secagem. Quando então foi que os sobrevividos sentiram sua pele sem gosto, sem sabor, sem mágoa. Na cabeça reminiscências de açúcar e de sal. Onde agora era essência? A alma era água.

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2 comentários sobre “conto de açúcar e de sal ou o insosso ou a alma lavada

  1. Que texto incrível. Já li em torno de 10 vezes, e em cada oportunidade acho um novo tesouro nele, uma pepita escondida (em meio ao sal? Ou estaria oculta sob o manto do mascavo?). Cheio de imagens poéticas ótimas e, bah, que imaginativo hein! Já fiquei pensando em pessoas doces e outras salgadas, hehehehe. “O grande mascavo se compadeceu do velho mestre agora falecido, saco de morte e pele, corpo desabitado sobre o próprio sal, e ponderou sobre haver erguido uma dinastia de vazios e medos. ” – queria ter escrito isso. Bom, queria ter escrito o texto todo. Ganhei minha noite lendo essa maravilha. 🙂

    Curtido por 2 pessoas

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