fane revém

não sei qual mundo era tempo em que eu era vigia

no descuido de momento

palavra correu fresta feito chispa na pólvora

poesia incendiou palavra que no vento sumia

era uma coisa sem intento

sem desejo não se nasce e eu jazia

nos olhos que me fizeram vista

eu, que me acreditava cinza desaparecida,

encontrei o ponteiro de um novo alento

olhos castanhos, palhaça menina, tome tento

corrente de delírio sem sentido e puro unguento

compromete o sentir, onde é fogo resfria lento

de unidas, piscamo-nos à beleza prenhe do novo intento

a cada parteiro de leitura no morrer da hora uma existência existida

no universo infinito sem um a menos sempre ainda cabe mais vida

arre, menina, não há que se entender nada não, dê logo a partida

no gesso da razão sabida demais é que se engana por ser menos sabida

 

 

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4 comentários sobre “fane revém

  1. vinha remoendo no ônibus as palavras vigia, fresta, poesia… era uma urgência de fane, e eu adentrei a casa jogando a bolsa e a chave buscando a caneta e o papel na mesa tão depressa quanto bexiga cheia que se quer esvaziada. o poema foi vindo aos borbotões e terminado, parei para o almoço, em meio ainda às garfadas vieram os ajustes e este comentário. o que me foi surpresa foi tamanho o contentamento de escrever isso. uma alegria de ver fane sendo outra, pedindo espaço para ser imaginada além do que na minha imaginação tinha sido existida. palavras soltas podem ser montes de nadas e ao mesmo tempo pilhas em chamas, fogueiras de magia. ainda com resquícios em mim de fane, pergunto a ela o que era essa alegria. ela me diz: nada tem mais flor que esse teu cheiro de pantanal. e você, fane? eu só queria ser objetivada de beleza.

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  2. Como te comentei pessoalmente (legal isso de conhecer a autora e saber que as palavras saíram de um ser de carne, osso, pele e casaco resfriado, não de uma amorfa tela branca), já tinha dado risada com o título, joyceano demais, brincalhão, e muito sonoro – teremos um dia um “fane’s day”? Torcerei. A voz da Fane apareceu com uma clareza quase espectral dentro do poema, sobrepondo-se à tua com tanta energia que quase silenciaste, mas conseguiste manter a (des)compostura. Gostei bastante, “tome tento menina”, e do final, que achei tão poético que chegou a ofuscar os olhos. “palavras soltas podem ser montes de nadas e ao mesmo tempo pilhas em chamas, fogueiras de magia.” – eu queria ter escrito isso, mas me falta habilidade e sonho. Está ficando cada vez melhor. 🙂

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  3. gostei de como leste o comentário como se fosse parte da poesia. fane’s day deve acontecer logo após ganhares a chave da cidade. tem sempre uma generosidade no teu exagero. é legal te conhecer. e providencie mais livros. 🙂

    Curtido por 1 pessoa

    1. O comentário é uma poesia por si só – só se liga ao poema por uma relação arbitrária chamada de “caixa de comentários”, mas eu poderia ler como um poema apartado. Quem precisa de chave da cidade quando tem poesia? hehehehe. Podemos fazer um fane’s day privado, e o resto do mundo que corra atrás para não ficar de fora. Tem sempre verdade no meu exagero – uso palavras como quem pega uma bazuca para matar uma formiga, mas, enfim, a formiga acaba sendo alvejada, pena são os excessos colaterais. Mas, na essência do que escrevo, existe verdade e, como Keats, acho que a Verdade é a única fonte da Beleza e com ela se confunde. Fico contente que tu gostes de me conhecer – o prazer é mútuo -, e escreverei mais livros desde que tu continues escrevendo também. Quid pro quo: eu escrevo daqui se tu também escreveres desse lado aí.

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