o grito

qual a experiência do grito?

afinal, todos um dia precisamos gritá-lo

gritar sem ser ouvido

onde?

no conforto da sua casa

há sempre um parente sensível

ou o síndico ou o vizinho

imagine se um bebê depois do grito chora

morde então a culpa

quem sabe ali na rua?

em frente a uma sinaleira

podem achar que é assalto

um tanto quanto justificado

mas se no susto cair um motoqueiro

e a emoção lhe der um ar decerto grosseiro

maçada, ainda é tamanha a vergonha

quem sabe mais longe de casa e ao centro?

no meio do povo que circunda suas práticas

mais atento ao destino que no caminho para a chegada

para não precisar confrontar os olhos

abaixe-se numa sentada

melhor se inclinado o corpo lhe derem apoio antebraço e cotovelo

ouse a posição deitada

quem sabe por cima do braço

o estique como a pedir alguma coisa

veja bem, ainda sem grito

quando se achar nessa pose

perceber os pés desviarem o nada

agora sim

pode gritar

 

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Um comentário sobre “o grito

  1. “Agora sim
    Pode gritar”
    Que belíssimo final. Muito legal perceber diversos gritos em inúmeros estados – teu poema também é um grito contido.
    O que me faz pensar: um grito que ninguém escute ou veja é ainda assim um grito?

    Curtir

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